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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Suzana Durão

 

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A Suzana veio ter connosco na manhã do seu aniversário. Faço hoje 43 anos, disse-nos. Reparei que, tal como eu, não tem as orelhas furadas e comentei isso. Ela olhou para mim e riu-se, às vezes perguntam-me, não tens pena de não usar brincos? Não, claro que não tenho. Pena? Mas de quê? As orelhas por furar são apenas uma das muitas coisas que fazem parte de mim. As mulheres exercem um imenso autocontrole relativamente a elas próprias e em relação às outras. Depois dizem que são os outros que o impõe, mas não, são elas próprias que o fazem.

 

Depois falou-me sobre seu cabelo curto, espantam-me as coisas que oiço sobre isto: Admiro a tua coragem. Ai, eu não era capaz. Não te sentes menos feminina? Não, claro que não sinto! O primeiro dinheiro que ganhei num trabalho, tinha eu onze anos, gastei-o num corte de cabelo. Ri-se. Gastei-o para cortar os meus longos de cabelos de princesinha. O cabelo faz parte daquilo que eu sou. Por isso não percebo mesmo esta coisa à volta do cabelo curto. Acho que talvez tenha a ver com o medo de mudança.

 

Falámos sobre o medo da mudar, o que nos levou ao seu trabalho no projecto transformação digital na Direcção-Geral das Artes  e o quanto este se está a tornar num modelo de inovação no sector cultural. Irritam-me aquelas pessoas que se acham moralmente e intelectualmente superiores por não estarem ligadas à tecnologia e que dizem “Eu dou mais valor ao contacto humano”. Mas o contacto digital é contacto humano. Temos é de perceber como é que podemos usar a tecnologia, o digital, para tornar o mundo mais justo, mais transversal e, ironicamente, mais humano. E de pensar como é que, enquanto seres humanos, nos mantemos relevantes numa sociedade que está em evolução por causa da tecnologia. As coisas mudam e nós temos de aprender a lidar com essa mudança.

 

O que é os quarenta me trouxeram? Olha, as minhas rugas, que eu adoro, e a noção de que as coisas podem correr muito mal, catastroficamente mal, mas que sobrevivemos. Que somos capazes de sobreviver. E essa noção liberta-nos. Aos quarenta  conheço-me melhor como mulher, naquilo que sou, incluindo na minha sexualidade. Os quarenta trouxeram-me uma grande liberdade sobre aquilo que eu realmente quero e aquilo que posso. E tolerância, sobre mim e sobre os outros que me rodeiam.

 

Enquanto a Suzana fala eu penso que os quarenta são isso mesmo: liberdade. Uma liberdade que só se conquista quando perdemos o medo de mudar. Não é um prémio, nem uma recompensa. É apenas um efeito dessa causa chamada tempo. Porque o tempo não tem moral. Nem o envelhecer. Pena que haja pouca gente a dar por isso.

 

Suzana Durão

 43 anos

Consultora