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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Sónia Morais Santos

Sónia Morais Santos

Blogger e jornalista

44 anos

 

Se senti alguma coisa com os 40? Talvez. Se bem que no início é uma festa, uma espécie de bebedeira, há agora aquela coisa, que agora se diz, de que os 40 são os novos 30, e eu sentia-me assim, tinha um bebé pequeno, fazia imenso desporto e achava que isto não tinha mudado nada. Mas dois anos depois senti-me diferente. Senti uma espécie de nostalgia, um bocado aquela coisa: bem, já vivi metade da minha metade da vida, e agora? A nostalgia do que já passou misturada com a inquietação do que vem para a frente. Depois, foi um período em que fui confrontada com a morte e com esta percepção de que vamos perder pessoas. Os meus 40 anos foram também este confronto com a mortalidade e com a ideia de que isto acaba e não tem sido fácil, pois morrerem e adoecerem amigos é uma coisa avassaladora. E percebes que nem tu, nem os que te são próximos, são eternos.

 

Para além disso os 40 trouxeram-me uma serenidade, uma maturidade, um perceber o que tu queres e o que não queres. As pessoas que queres à tua volta e as que não queres. Fazeres cada vez menos fretes. Perceberes que o tempo é muito limitado, que passa muito depressa. Um “não, eu não vou por aí, não quero esta pessoa”. Isto senti de forma muito vincada. E penso muito mais nas coisas, sou menos reactiva e mais reflexiva. Os 40 trouxeram-me esse prazer de aprofundar, do porquê que há feridas que ainda não fecharam, e isso é um caminho interessante que te permite conhecer-te melhor.

 

Pergunto-lhe se lhe custa envelhecer. Ri-se. Um bocadinho, talvez. Eu acho que todas as mulheres gostam de sentir que atraem, que nos olhem de outra forma, que somos um objecto de desejo. E subitamente, a partir de certa altura, há aquela sensação, então? Não há aqui ninguém a olhar para mim? E isso é tramado, custa. Há uma grande pressão, não tenhamos ilusões, à volta do envelhecimento. Diz-se “envelheceste imenso” como se fosse um insulto. Ser velho é uma coisa má. Perdeu-se um bocado o respeito por quem já viveu muito, por quem tem memória. Há uma cultura do novo, do fresco, do sempre “cool” e sempre feliz e um desrespeito total por quem viveu, por quem sabe, por quem tem imensas coisas para contar e isso é triste.

 

Mesmo antes de terminar (quase que nos esquecíamos do objecto) pergunto-lhe pela caneta. Esta caneta foi a minha mãe que me deu. Tem tudo a ver comigo, porque eu passo a vida a escrever. Estou sempre a escrever escrevo em qualquer lado, até num guardanapo de restaurante. Esta caneta define quem eu sou. É uma espécie de prolongamento de mim.

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