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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Ruth Correia

Ruth Correia

50 anos

Professora de alemão e expressão dramática

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Foi a Ruth quem nos contactou. Tropecei nas #maisde40, diz, comecei a seguir o projecto, achei bonito, pois põe um bocado o foco num tipo de pessoas que se tornam um pouco invisíveis para a sociedade: as mulheres com mais de 40 anos. Para além disso achei que era uma boa forma de sair da zona de conforto. Perder o medo de tirar fotografias, por exemplo.

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Pergunto-lhe se gosta de ter mais de 40 anos. Sim, sem dúvida. Eu não sei se já encontrei o meu lugar no mundo, mas sei mais aquilo que não quero. Tenho as ideias mais no sítio. Dantes julgava muito mais as pessoas, tinha mais certezas. Eu acho que uma pessoa com 20 ainda está à procura de si. Em termos de aspecto, acho que agora estou muito melhor. Ri-se. Talvez também tenha a ver com a moda dos anos 80, que era horrível! Para além disso, os 40 trouxeram-me a saída de casa dos meus filhos e essa mudança obrigou-me a ir à procura de outras coisas que me definissem. Um novo rumo.

 

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Gostas de envelhecer? Pergunto-lhe. Bom, há aquelas manhãs que uma pessoa se olha ao espelho e pergunta: meu Deus, quem é esta pessoa? Mas normalmente não penso nisso. Não me sinto pesada pela idade. Para além de que tenho a  ideia de que não envelhecemos por dentro à mesma velocidade que envelhecemos por fora, apesar dos outros acharem que sim. Eu sou professora e sei que os que os miúdos veem em mim é mesmo uma mulher de meia-idade. E eu, tirando esses tais momentos ao espelho de manhã, não vejo essa mulher. Ainda no outro dia, com a minha turma do 12º ano, resolvemos conversar sobre os planos deles, do que querem fazer a seguir. Estávamos numa roda, e quando chegou à minha vez, passaram-me à frente. E eu perguntei, então e eu? E eles olharam para mim, com muito espanto, e perguntaram: Ah, mas a professora ainda quer fazer coisas? Como se eu já estivesse arrumada.

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Pergunto-lhe pelo objecto. Trouxe uma caneta, que me foi oferecida pelo meu pai, quando acabei o curso. Eu escrevo sempre com caneta, gosto muito de escrever à mão com tinta permanente. Uso a caneta todos os dias, no meu trabalho, nos meus cadernos (tenho muitos!), para escrever cartas, adoro escrever cartas. Estudei numa escola alemã, onde, desde cedo, somos ensinados a escrever com caneta de tinta permanente. Escrever a caneta é algo que tem a ver muito com a minha identidade. Apesar de ter nascido em Portugal, cresci numa redoma alemã. A minha mãe é alemã. O alemão é a minha língua materna. Não é que eu não me sinta em casa com o português, fui alfabetizada ao mesmo tempo, mas o alemão é para mim a língua mãe. Eu falo em alemão com os meus filhos. Todas as lengalengas, canções, histórias, eu aprendia-as em alemão e em alemão passeia-as aos meus filhos. O alemão para mim é a minha língua mãe e de mãe. E esta caneta é, talvez, o meu pai.