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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Raquel Marinho

 

44 anos

Jornalista

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A nossa conversa começa, inevitavelmente, à volta do trabalho de divulgação de poesia, da Raquel. Este meu trabalho começou em 2010, com um projecto que fiz com o Luís Filipe Cristóvão, diz-me. Desafiei-o para fazer comigo uma tertúlia de poesia, no bar Vinil, na Orquestra Metropolitana de Lisboa. Chamava-se “Poesia em Vinil”. Durante um ano convidámos um poeta por mês e também músicos tocar no âmbito daquela poesia. Na altura, convidei também a Inês Menezes da Radar a fazer uma parceria comigo. Foi muito giro, aquilo enchia todos os meses, juntava muita gente. Gente, música e poesia. Também fiz outro projecto muito giro com o José Mário Silva, a “Avenida de Poemas”, para o qual convidávamos figuras públicas para falar connosco sobre a poesia de que gostavam. O projecto do Expresso “O poema ensina a cair” (44 poetas num ano) foi uma empreitada que também me deu imenso prazer.

 

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Deixamos a poesia e começamos a falar do tema que ali nos trouxe. Pergunto-lhe se acha que era mais bonita aos 20. Eu acho que há uma cultura da juventude, da beleza associada à juventude, responde-me. Como somos influenciadas por essa cultura, tendemos a pensar que éramos mais bonitos quando éramos mais novos. A idade põe-nos em contacto com a nossa mortalidade e finitude e isso acaba por influenciar o confronto com a nossa imagem. O que eu noto de diferente é que há, no que à beleza diz respeito, uma tranquilidade que se manifesta na maneira de estar e que se revela muito bonita. Se eu me acho mais bonita do que quando tinha 30 anos? Não, não acho. Mas acho que tenho outros atributos. É isto que eu sou. A beleza também é esta aceitação. Que  é diferente de resignação, note-se. É um sermos muito mais nós, eu sou muito mais eu com 40 e tal anos.

 

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Pergunto-lhe se gosta de ter 40 anos. Eu fui mãe aos 27 anos e agora tenho uma filha de 16 anos, que está muito crescida, de cabeça, de forma de olhar a vida. Os 40 trouxeram-me isso: uma filha mais crescida e sinto que cada vez estamos mais próximas.

Acho também que os meus 40 me dão alguma sabedoria e calma. Sei escolher melhor, apenas gasto energia com o que vale realmente a pena. Faço menos fretes. O tempo, agora, é mais rico, é mais sábio. Andamos menos a experimentar. Não quero dizer com isto que não gosto de experimentar coisas novas, (muito pelo contrário, curiosa é o meu nome do meio) é mais  no sentido de ter menos necessidade de experimentar, pois sei cada vez mais o que quero. A idade é um rio mais tranquilo. Há certezas que se tornam mais clarividentes com a idade: eu sou finita, as pessoas de quem gosto também. Costumo dizer que a morte é uma coisa que acontece aos que ficam. Vamos todos desaparecer. E essa consciência faz-nos valorizar mais o tempo que temos. Escolhemos as guerras, não podemos ir a todas (ri-se). Eu dantes ia a todas, era uma canseira.

 

 

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Pergunto-lhe pelo objecto. Mostra-me um livro de poesia de Álvaro de Campos. Trouxe esta edição porque foi o meu primeiro livro de Álvaro de Campos. Descobri-o na escola e teve um efeito em mim tremendo. É o meu primeiro poeta. Tem um dos poemas da minha vida, o “Poema em Linha Recta”. Quando o li, identifiquei-me absolutamente com ele. Eu era uma miúda, mas tinha muitas dúvidas, sempre tive dúvidas, e à minha volta só tinha gente cheia de certezas. E pensei, é isto, é mesmo isto. Foi um poema revelação e que me acompanhou ao longo da minha vida. E lembro-me agora também de um verso do Vasco Gato, de que eu gosto muito: “O que eu habito é a minha vulnerabilidade”. É preciso ter alguma tranquilidade para assumirmos que somos assim. E eu hoje habito completamente essa minha vulnerabilidade. Quando somos mais novos não é fácil fazê-lo, mas com a idade aprendemos a habitá-la.

 

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