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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Patrícia Fonseca

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Acompanho o trabalho da Patrícia já há algum tempo. Quando eu e o Mário começámos este projecto, o nome da Patrícia foi um dos primeiros nomes que escrevemos na lista. Tinha a ideia de que ela teria imensas histórias para contar, muito capital de tempo para partilhar connosco. Não me enganei. Tanto que perdemos a noção do tempo enquanto conversámos. 

 

Perguntei-lhe qual o trabalho que mais a tinha marcado. Dizer qual o trabalho que mais me marcou é difícil, respondeu-me. Fizeram-no todos de maneiras diferentes. Mas, talvez, o primeiro, em 1997 tenha sido o que me tenha marcado mais. Tinha começado a trabalhar há cerca de um ano e tal, ainda era estagiária, e fui aos Açores fazer a reportagem sobre o deslizamento de terras na Ribeira Quente. Foi o primeiro impacto que tive com a morte. Uma semana no meio de bombeiros, populares, a tentar encontrar pessoas com vida. Houve famílias inteiras que morreram. Uma semana sempre a chover, sempre molhada até aos ossos, a acompanhar o retirar de cada corpo, a ir a todos os funerais. Foi ali que eu percebi que, apesar da minha fragilidade, apesar de ser uma pessoa muito emotiva, conseguia fazer aquele tipo de trabalho. A reportagem chegou a receber um prémio de revelação. Mas foi, mais do que tudo, o “sou capaz de fazer isto” que eu ganhei dessa experiência.

 

A propósito desta história perguntei-lhe como é que se ganham defesas para, que durante um trabalho desses, se consiga lidar com a morte. Tens de ganhar, responde-me, não tens outra hipótese. O mais complicado dessas experiências é o regresso. Lembro-me que quando voltei do Haiti, depois dos terramotos de 2010, era época de Natal e, naturalmente, havia um ambiente de celebração. E eu, que tinha regressado de um sítio onde havia morte, destruição e fome, só pensava, como, mas como podem estar todos tão normais? O Haiti foi uma experiência muito dura. Morreram quase 300 000 pessoas. Tropeçavas nos corpos na rua. Houve uma altura em que começaram a fazer piras para resolver o problema dos cadáveres. Vi crianças a serem despejadas em valas comuns. Para além disso foi todo o ambiente em volta, era um país em caos, onde havia pessoas capazes de matar por uma garrafa de água. Nestes sítios, nestas situações vem ao de cima o pior e o melhor de nós. Se por um lado o instinto de sobrevivência nos transforma em bichos, por outro também somos capazes das coisas mais bonitas que vi na minha vida. Amor e solidariedade entre desconhecidos, pessoas que se salvaram umas às outras, verdadeiros raios de luz no meio das trevas. E nestes raios de luz estão as histórias que mais me interessam. Estes sítios também nos marcam no sentido de darmos valor aos privilégios que temos, como por exemplo poderes abrir uma torneira e teres água, poderes pôr os teus filhos a dormir sem teres medo que a tua casa seja destruída por uma bomba. Isto é um paraíso no meio do caos que é o mundo. Quando passas por outros sítios e vives outras realidades passas a relativizar. E tal como diz o Sérgio Godinho percebes que “a vida é feita de pequenos nadas”.

 

Já no fim da conversa pergunto-lhe pelo tema que a trouxe até nós: os 40 anos. Não senti grande mudança aos 40, se queres que te diga. A grande mudança para mim foi aos 37, quando fui mãe. E depois aos 43, quando fui mãe de novo. E aí sim, digo-te, quando se é mãe nessa fase, já se sente sente-se a idade. Principalmente porque durante a gravidez te  apercebes que corres muitos mais riscos. Riscos associados à idade que já tens.  E, sinceramente, acho que não mudei assim tanto com a idade. Acho que mantenho uma certa inocência na forma de olhar o mundo, a capacidade de olhar para as coisas como se fossem novidade. Isso, a maternidade ajudou-me a manter. Sinto-me sempre uma miúda cá dentro e quero sentir-me assim quando tiver 80 anos. Quero acreditar que vou continuar a acreditar. E que vou manter esta capacidade de ver os raios de luz mesmo quando tudo se apaga.

 

Patrícia Fonseca

44 anos

Jornalista e editora