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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Natália Pona

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Tenho uma paixão por livros, blocos de notas, cadernos, diz-nos, enquanto nos mostra o objecto que trouxe: um “Livro em branco”. Não vou a lado nenhum sem um livrinho, desde pequena. Neles registo todas as viagens que fiz, todos os momentos a dois, ou mesmo sozinha, de que me queira lembrar mais tarde. Este (livro) foi-me dado muito antes de eu o começar a utilizar. Um dia surgiu-me a ideia de registar as primeiras vezes de qualquer coisa das minhas filhas: a primeira vez que viajaram, que foram ao cinema. Mas, depois, comecei  a registar o que elas diziam. Está cheio de momentos destes, escritos tal como se passaram. Quando a minha filha mais velha fez 18 anos ofereci-lhe o livro dela, no qual aparecem muitos momentos que aqui registei. E fiz o mesmo nos 18 da minha segunda filha e tenciono fazer o mesmo aos outros quatro. Acho que é uma prenda bonita, que lhes fica para a vida. Porque é que este livro me conta? Sou uma pessoa muito emotiva. E este livro reflecte isso, esses momentos que me marcam, que me emocionam dessa forma. Este livro retrata-me tal e qual como eu sou. Eu sou estes momentos vividos com os meus seis filhos. Dizem tudo de mim. A minha vida é feita destas histórias.

 

Pergunto-lho pelo tema que a trouxe até nós, o envelhecimento. Não há grande remédio senão aceitar o envelhecimento, responde. Claro que me olho ao espelho e vejo diferenças. Mas não faz sentido não aceitarmos essas diferenças, esses sinais do tempo. Eles são aquilo que somos. Aponta para a madeixa branca do cabelo, há uns tempos pintaram a minha madeixa e eu fiquei desorientada, fiquei um fim-de-semana inteiro em casa a tentar conhecer-me. Ter aqui uma mancha branca é a minha forma de estar, eu também vejo o mundo através destes cabelos brancos. Faz parte de mim.

 

O que me assusta não é propriamente o meu envelhecimento, mas o dos outros que me rodeiam, dos meus pilares, dos meus pais, porque envelhecer também significa irmos perdendo pessoas importantes da nossa vida. Isso para mim é um grande golpe. Isso magoa-me. O envelhecimento também me sensibiliza mais agora, por trabalhar no local onde estou (Centro Neurológico Sénior). Ver o envelhecimento doente, ver pessoas que foram extremamente válidas para a sociedade totalmente dependentes mexe muito comigo. A doença neurológica é cruel. É demolidor ver essas pessoas que em dois anos perdem totalmente o controlo do corpo estando lúcidas. Entramos ali numa fase de perdas, de isolamento. É pesado. E estas doenças são doenças da família inteira. A família também adoece com elas.

 

Esta realidade apanhou-me numa fase da minha vida em que, devido à pediatria, eu ainda via tudo com floreados. Nas crianças é tudo novo, tudo bonito (apesar de por vezes também vivermos situações dramática). Esta fase do envelhecimento, não, é o fim.

 

E os 50? Pergunto. Nunca pensei muito neles, confesso. A não ser na véspera. Faltavam uns minutos para a meia-noite e pensei, vai ser agora. Deixei escapar uma lagrimita e comecei a escrever. Uma reflexão, um resumo deste meu meio século de vida. Se noto diferenças em mim? Pensa um instante. Talvez. Agora, sou mais genuína, responde, tenho menos filtros. Acho que sou menos contida. Se tenho de dizer alguma digo, se tenho de chorar, choro, se tenho de rir, rio. Acho que nesta idade estamos muito mais seguras das nossas convicções, da nossa maturidade. Sem dúvida que sou muito mais interventiva na sociedade agora, do que era antes. Talvez porque tenha uma noção muito mais clara de que a vida é uma passagem, uma passagem rápida. E mesmo tendo essa noção de que temos de aproveitar o tempo ele escapa-nos sempre das mãos. Por exemplo, estamos agora aqui a conversar e daqui a pouco já passaram uns meses e irá parecer-nos que foi ontem. Às vezes, digo às minhas filhas mais velhas, vocês não sabem, mas ainda há dias eu tinha a vossa idade. E parece-me mesmo que foi há dias.

 

Natália Pona

50 anos

Médica