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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Maria Vlachou

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A conversa com a Maria voou. Quase que me esquecia de lhe fazer perguntas sobre o tempo e a idade. Já desconfiava que assim fosse. Quando a convidei, também o fiz  por admirar o seu trabalho na Acesso Cultura, uma associação sem fins lucrativos que promove a melhoria das condições de acesso – nomeadamente físico, social e intelectual – aos espaços culturais e à oferta cultural, em Portugal e no estrangeiro.

 

A cultura é uma componente muito importante se quisermos imaginar um mundo melhor, diz-me. No entanto, as pessoas muitas vezes não sentem que a dita cultura formal seja para elas. Seja pela forma como se apresenta e comunica uma dada exposição ou pela forma como se comunica uma dada temática a discutir. E esta má comunicação torna-se uma barreira entre as pessoas e a cultura. As pessoas sentem, “isto não é para mim”. 

 

E na minha opinião isto acontece por várias razões. Uma delas é simplesmente por não haver interesse da parte de algumas instituições. Estas estão satisfeitas com o grupo exclusivo e restrito para quem produzem essa cultura. Outra razão é porque estamos habituados a trabalhar de uma determinada forma. Sempre trabalhámos assim, quem está habituado gosta, quem não está ou quem não percebe também não vai dizer que não percebeu ou que não gosta. Por isso continuamos a fazer o mesmo na ilusão de que estamos a fazer bem só porque algumas pessoas batem palmas. Mas isto também começa a mudar em alguns países. É o caso do Reino Unido. Há uma grande viragem de atitude no governo britânico, no Arts Council. Este percebeu que, ao financiar sempre as mesmas instituições e apenas um determinado tipo de cultura, tanto na forma de fazer, como de usufruir, não diversificava nem alargava o seu ciclo de relações com o público. Neste momento há uma viragem nessa atitude. Por exemplo: tornar quem consome cultura em co-criador. Isso é uma grande mudança.

 

Pergunto-lhe se o envelhecimento faz parte da nossa cultura. Faz parte, mas não lidamos bem, responde-me. Não somos capazes de ver a beleza de estarmos a envelhecer, que não é necessariamente uma beleza física. É tudo aquilo que a pessoa traz dentro dela. E para ver isso é preciso vontade, disponibilidade. Se lidássemos melhor decerto as pessoas ficariam mais apaziguadas, haveria menos pressão. Ri-se. Havia menos (de)pressão.

 

Gostas de envelhecer? Pergunto-lhe. Sorri. Até agora sim. Até agora todas as alterações que vejo em mim na minha cara e no meu corpo não me incomodam nem me entristecem, sinto-me bem. E até há momentos em que sinto mais bonita agora do que quando era mais nova. Talvez porque sinta que minha cara se reflecte o meu percurso até aqui.

 

Então não és daquelas pessoas que gostavam de ter menos 10 anos, comento. Ri-se, não, de maneira nenhuma. Estou muito feliz assim. Tenho maior paz. À medida que os anos passam as ideias sobre algumas coisas ficam mais arrumadas e dão lugar a uma fase nova. É uma outra forma de estar que me agrada muito. Já sei quais são as minhas prioridades na minha vida. Ficaram muito claras. Estou muito feliz assim, repete.

 

Maria Vlachou

47 anos

Gestão e Comunicação