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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Maria João Martins

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A Maria João trouxe os seus sapatos do casamento para a sessão. Estes sapatos contam uma história de amor, diz-me. Uma história de amor que acabou com a morte do meu marido, em Dezembro. Gosto de os usar, assim como o meu vestido de noiva, que não é um vestido de noiva convencional. Visto-o e tenciono continuar a vesti-lo muitas vezes. É uma forma de celebrar o nosso amor.

 

A propósito dos sapatos falámos do seu gosto por moda. A moda também conta histórias, diz. Desde histórias de pura frivolidade a histórias de grande resiliência. Como a das mulheres britânicas que, mesmo com todas as privações, não deixavam de ser coquetes, ou a das francesas, que faziam uma risca de caneta na barriga das pernas para fingir que usam meias. A moda fala da história colectiva e individual das pessoas. O que vestimos também conta quem somos. Lembro-me, por exemplo, do que tinha vestido no dia em casou a princesa Diana. Tinha 13 anos e um vestido de florinhas azuis. Tenho guardadas as camisolas em ponto de pena de pavão que a minha avó me fazia e que a minha mãe e as minhas tias já não aprenderam a fazer. E guardo o vestido de noiva da minha mãe. Quando o trouxe para casa, depois da sua morte, passei a noite a chorar. O que vestimos também conta quem somos.

 

A nossa conversa foi uma conversa longa, cheia de gargalhadas. Falámos da sua paixão pelo jornalismo e pelas histórias. Eu sou acima de tudo uma coleccionadora de histórias, confessa. Tenho uma imensa curiosidade pelas possíveis e as histórias são a melhor ponte que temos para estabelecer com o outro. As histórias também são uma forma de empatia, sedução. Uma forma de dizermos, tenho algo para partilhar contigo e também, estou aqui, estou disponível para te ouvir.

 

Quando lhe pergunto como é ter 50 anos, diz-me: é termos consciência que o tempo é mais curto. E depois é sentirmo-nos mais livres, mais libertos do olhar dos outros e do que esperam de nós. Quando era mais nova sentia que não era uma mulher que correspondesse aos padrões convencionais de beleza mas, à medida que o tempo foi passando, fui percebendo que não é por isso que as pessoas gostam de nós. O que faz as pessoas apaixonarem-se por nós é um todo que vai muito para além do aspecto físico. Ter 50 anos é ir perdendo os medos e as inseguranças. Hoje, sinto-me capaz de quase tudo.

 

Enquanto o Mário lhe fotografa os sapatos, os tais que contam uma história de amor, a história de amor da Maria João, lembro-me do tema do filme “Les parlapluies de Cherbourg”, filme pelo qual ambas descobrimos partilhar o mesmo gosto. E lembro-me da cena final, onde os apaixonados Guy e Genevieve se separam, na bomba de gasolina. Separam-se sem nunca se despedirem. Porque histórias de amor nunca terminam, revivem-se. Até quando calçamos uns certos sapatos.

 

Maria João Martins

Jornalista

50 anos