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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Liliana Mendonça

 

 

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Liliana Mendonça

47 anos

Ex-bailarina, professora de dança

 

Nós, bailarinos, temos de aprender a lidar com o tempo desde muito novos. Cedo sentimos e sabemos que a dança é e será a nossa vida e que, por isso, aos 18 já teremos de estar no mercado de trabalho. Talvez a nossa carreira nos faça sentir “mais velhos” demasiado cedo. Tal como os atletas, para os bailarinos a carreira é o tempo que nos sobra. Aos 30, quando todas as outras pessoas estão no auge da sua maturidade física, e ainda que não nos vejamos como pessoas velhas, sabemos que o nosso tempo enquanto artistas já está a chegar ao fim. Afinal, o corpo, que é o nosso instrumento de trabalho, é finito. Este, a dada altura, apesar de toda a sua maturidade artística, já não responde da mesma maneira. E lidar com isso pode ser difícil, assim como é muito difícil parar, pois deixar de dançar vai para além das saudades. A dança é a nossa identidade. É-se bailarino. E eu sou bailarina. Sou muito mais coisas, claro, mas ser bailarina é isso, a minha identidade.

 

Pergunto-lhe se sentiu alguma mudança aos 40. Sim, senti. Senti no corpo, mas não por uma questão estética, aliás nunca pensei sequer nisso. Mas como o meu corpo é o meu instrumento de trabalho, tenho necessidade de me sentir em forma, com dinâmica e energia suficiente para estar à frente de imensos alunos. Em termos emocionais, não foi tanto a idade que tenha feito alguma mudança, mas sim a maternidade. Inclusive mudou a forma como eu dançava. Aquele amor visceral, aquela doçura da maternidade levou-me a dançar de uma forma diferente, a sentir-me mais mulher, talvez.

Claro que eu sinto a passagem do tempo, uma pessoa olha-se ao espelho (e não falo daquele olhar diário, mas daquele olhar a sério que só acontece de vez em quando) e pensa: o tempo passa, como o tempo passa! Mas lido bem com a idade. Não sou nada como aquelas mulheres que tiram anos ou só põem uma vela no bolo. Ri-se. Eu gosto muito de viver, e tenho um sentido de alegria na vida, e para viver muito é preciso celebrar os anos.

 

Pergunto-lhe pelo objecto que trouxe. É uma fotografia. Que também é um bocadinho o resumo de tudo o que eu disse e daquilo que sou. Esta fotografia é pura emoção do momento. Tem a ver com a minha paixão pela dança. Este bailado, “Amar Amália” do Vasco Wellenkamp, foi muito importante para mim, foi um trabalho que me fez viajar muito. Tinha 33 para 34 anos e tinha sido mãe pela segunda vez e recuperei a forma física só para estar neste bailado. Foi muito especial.  

 

Voltamos aos 40 anos, ao que esta idade nos pode trazer. Tenho muito mais serenidade a lidar com as situações imediatas, acho que agora vivo os momentos com o carinho que devemos viver, diz-me. A idade faz-nos dar conta que o tempo passa muito rápido e passa ainda mais rápido para quem tem filhos, porque o tempo neles é visual, é diário, a lembrar-nos que cada momento é precioso. É bom aproveitar cada momento e dar-lhe a importância devida. E isso só aprendemos à medida que vivemos.