Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Leonor Barros

Leonor_Barros-maisde40-19.jpg

Leonor_Barros-maisde40-20.jpg

Leonor_Barros-maisde40-5.jpg

Leonor_Barros-maisde40-11.jpg

Leonor_Barros-maisde40-16.jpg

 

 

A primeira vez que me cruzei com a Leonor foi numa “curva da estrada”, nome do blogue que ela tinha na altura. Foi um blogue catártico, diz-me, pensado para fixar no tempo algumas memórias do meu pai. Não foi um blogue de dor, de perda. Porque essa, que ainda hoje tenho, tentei que nunca passasse.

 

Pergunto-lhe como se sente com 52 anos. Acho que sou mais mulher, mais assumida, mais despreocupada. Ri-se. Se bem que nunca tive muitos problemas com o que os outros pensavam de mim. É uma despreocupação no sentido de ser mais livre e de perceber que a liberdade é a coisa mais importante que temos. Envelhecer depende muito da forma como encaramos a vida, e aí a minha mãe foi determinante. Acho que foi dela que herdei esta fome de viver. Para além disso, estes últimos tempos têm sido tempos de descobrir coisas que desconhecia em mim. Que sou uma pessoa positiva e resiliente, por exemplo. E, da influência, que enquanto professora tive na vida de alguns alunos. Isto, então, tem sido uma descoberta tremenda. A de que existimos na vida de alguns alunos, para além da sala de aula, de que nos levam com eles, para a casa, e por vezes para o resto da vida. Eu sei que é estranho e que até pode soar a falsa modéstia, mas só tive esta noção recentemente.

 

Falámos, também, da sua paixão por viajar. Faz parte do prazer que tenho pela vida e da necessidade imensa de me libertar. Não sou uma mulher tradicional, detesto rotinas, não sei viver com quotidianos fechados e quando viajo deixo isso tudo para trás. Falámos inevitavelmente de Berlim, a sua cidade preferida. Apesar de não achar que seja particularmente bonita é uma cidade com quem, riu-se, porque para mim é quase como se fosse uma pessoa, tenho uma ligação muito forte. A primeira vez que lá fui, tinha 15 ou 16 anos. Fui durante uns dias, com uma bolsa escolar. E numa altura em que não se passava nada em Portugal, num tempo em que o país era ainda muito cinzento, Berlim Ocidental mostrou-me um mundo moderno, cosmopolita. Para além disso, ainda vivi uma Berlim com muro e, mesmo ainda sem ter maturidade politica para perceber o que isso significava, esses dias colaram-se a mim para sempre.

 

E eu penso que, numa Europa que se parece querer voltar a murar, fazem falta pessoas como a Leonor. Pessoas que, antes de tudo, escolham a vida sem fronteiras,  a vida tal como ela é.  “Choose life”, que foi a última coisa que ela me disse, quando lhe perguntei se tinha uma frase preferida. “Choose life”, respondeu, citando a introdução de Trainspotting. “Choose life”.

 

Leonor Barros

Professora Inglês e Alemão

52 anos