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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Isabela Figueiredo

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Fiz 55 anos no dia 1 de Janeiro. Não gosto nada desse dia. É um dia muito triste, está tudo fechado, as lojas e os cafés, um dia em que me lembro sempre de que estou cá, que estou na Terra, que estou viva e do que estou aqui a fazer. E por isso é um dia do qual eu fujo bastante. Fujo de toda a gente, não deixo ninguém dar-me os parabéns. Mas este ano foi o primeiro ano em que me perguntei,  “De que é que eu fujo?”, “Qual foi o momento da minha vida em que deixei de gostar de fazer anos?”. E percebi que deixei de gostar de fazer anos quando me separei dos meus pais, quando vim para Portugal. Tinha 13 anos. É aí eu deixo de gostar de fazer anos. Nessa altura, faço anos num contexto de vida muito difícil, onde eu tenho apenas de sobreviver. Nesses primeiros anos de vida, em Portugal, eu tenho de reaprender a viver: é tudo novo para mim, tudo muito difícil. Sou uma menina sozinha, longe do pai e da mãe, que está naquela idade em que é suposto ser rebelde, de questionar tudo e é amputada disso porque tem de ser muito racional para prevalecer. Ninguém prevalece no meio da loucura. Esse momento é um momento de grande fractura na minha identidade. Mas só tenho consciência disso agora. E tenho muito orgulho da menina que fui: muito forte, tenaz, sempre com esperança e isso num contexto totalmente adverso. Todo o meu percurso é um percurso de grande desamor. E nesse percurso de desamor resta-me o quê? Amar-me, ser capaz de me fortalecer no meio da confusão que foi o PREC.

 

Peço-lhe para me falar do objecto que trouxe. Olha, este cão foi-me dado há cerca de 2 ou 3 anos por uma vizinha que mora no meu prédio. O cão tinha-lhe sido dado pela própria mãe e ela deu-mo a mim. Essa minha vizinha ajudou-me muito numa altura em que eu precisava. Numa altura em que o meu pai estava incapacitado numa cadeira de rodas e que eu não o conseguia tirar de casa por causa de 4 degraus que existem à saída do elevador do prédio. E o marido dela, da altura, que era um homem forte, pegava na cadeira de rodas do meu pai e ultrapassava aqueles 4 degraus. Era ele o mediador entre a prisão e a liberdade do meu pai. Essa foi uma época muito difícil para mim, e a minha vizinha e o marido dela não sabem o quão importantes foram para mim. Este cão também me representa porque os cães sempre foram os meus companheiros de vida. Quando eu escolhi este objecto foi nisto que eu pensei primeiro, no meu amor aos cães. Mas depois pensei, espera, este cão foi-me dado pela Raquel. E essa é outra história que este objecto conta.

 

Pergunto-lhe se gosta de ter 55 anos. Sabes, curiosamente, acho que sou mais bonita agora. Acho que os meus traços com o tempo se apuraram e se tornaram mais bonitos. Eu olho para as fotografias dos meus vinte anos e é claro que lhes encontro beleza, mas agora encontro mais. A minha pele pode ter menos vigor, estar mais envelhecida, mas gosto do que vejo. Eu gosto muito de rugas. Gosto de ver caras de mulheres com rugas. Detesto ver caras com botox, ficam inchadas, estranhas. Gosto de rugas porque têm história, tal como as cicatrizes. Explicam o que viemos cá fazer. E nós viemos cá viver, apanhar rugas e cicatrizes. A vida também é dificuldade e dor e precisamos da dificuldade e da dor para que isto tenha sentido. Sabes? Para mim o tempo é depuramento. O tempo depura. Envelhecer é depuração. É depurar o pensamento, aprender a conhecer os outros, o que te rodeia. Eu gosto desta ideia de ser mais velha. Tenho medo de alguma incapacidade que a idade traz, mas não tenho medo do envelhecimento. Consigo imaginar-me velha. Acho que vou ser uma velha extraordinariamente bem-disposta e divertida. Capaz de aliviar os medos e o fardo dos outros.

 

E a escrita? Pergunto-lhe. O meu processo de vida e o meu processo de escrita são muito parecidos, responde-me. Eu vou e sou levada. Nunca tive uns planos de vida muito concretos. Eu nunca decidi:  “Eu quero ser escritora”. Bem, era um sonho, uma quimera. Mas não sabia como se fazia. Mas fui-me aproximando da escrita por outras formas: pelo jornalismo, pela docência. Ser jornalista era escrever e ser professora era ensinar a ler e a escrever. Eu, sem querer, vim ter àquilo que queria. Isto é o que eu sempre quis ser e nunca ousei. Porque eu não nasci rica, se tivesse nascido noutra classe social e cultural, eu podia ter dito que queria ser escritora. Mas eu tive a consciência que não podia ser do “pé para mão” e fui subindo os degrauzinhos, ou entrando pela porta do lado. E vim cá ter. Até este lugar.

 

Isabela Figueiredo

55  anos

Escritora

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