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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Isabel Zibaia Rafael

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Eu e a Isabel temos duas coisas em comum: a culinária e o mudar de vida. A conversa foi, por isso, fácil. Falámos do prazer de cozinhar, para nós e para os outros e de como cozinhar é uma forma de transmitir afectos e celebrar a vida.

 

A comida para mim é uma forma de felicidade, diz-me. Uma felicidade partilhada à mesa, um bocadinho de nós que podemos dar aos outros, misturando sabores, ingredientes e amor. A comida traz alegria. Repara, quando numa festa a comida é má, ninguém sorri. Mas se, pelo contrário, a comida estava boa, toda a gente fala sobre isso, há boa disposição. Há esta magia à volta do que comemos e da mesa. Uma magia através da qual damos um bocadinho de nós. Uma magia que nos traz memória queridas. Lembro-me, por exemplo, da primeira mousse de chocolate que comi com ovos caseiros. Poderão passar 500.000 mousses, mas aquela, por ser a primeira, por ser especial e pelo que representa, será sempre única. Esta, também, é a magia da comida.

 

Pergunto-lhe como começou esta aventura pela culinária. Começou em 2006, com o blogue, o “Cinco quartos de laranja”, responde-me. Mas começou como um hobbie, uma forma de eu ocupar o meu tempo livre com algo que gostava muito de fazer. Nunca pensei, quando o abri, que alguma vez chegaria onde chegou, nunca. A culinária foi algo que foi ganhando terreno na minha vida. E depois há um dia que em percebes que aquilo é o que te traz alegria e entusiasmo. Que é aquilo que te ocupa o pensamento, as horas. E o bichinho do “e se?” começa a crescer. Até que um dia é o dia e tomas uma decisão, arriscas. E dás o salto, digo-lhe eu. Sim, responde, dás o salto. Mas esse salto também é um momento de muitas dúvidas e angústias. Largar o certo pelo incerto dá medo. Mas depois o caminho faz-se e o medo vai-se perdendo. E vale a pena.

 

Pergunto-lhe se o facto de ter 41 anos pesou nessa mudança de vida. Talvez, responde-me. Aos 40 comecei a olhar para vida de outra maneira. Começamos a pensar, se calhar isto não dura para sempre. Ri-se. Se estiver a meio da vida já não é mau. Se for assim tenho de aproveitar muito bem a outra metade. É certo que temos a noção que fisicamente as coisas não vão melhorar. Temos então de viver o tempo que nos resta da melhor forma, fazer o que nos faz feliz. Porque continuamos a sonhar. Eu pelo menos ainda continuo, ou se calhar até sonho mais do que quando era mais nova. Tenho ainda muita coisa que gostaria e espero fazer. Espero fazer porque os 40 também nos trazem uma maior clareza sobre as nossas forças, os nossos pontos fracos e as nossas limitações. Aos 40 já não tens a vida toda à tua frente, mas a que tens é mais plena, mais lúcida.

 

Quando lhe pergunto de que é que se orgulha mais dos seus 40 anos, responde-me sem hesitação:de não ter na minha vida nenhum “ai, se eu tivesse feito…”.

 

E eu penso que talvez o segredo para termos dias mais felizes esteja aí mesmo. No não ficarmos no que devíamos ter feito.

 

Isabel Zibaia Rafael

45 anos

Blogger, cozinheira e escritora de comida.