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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Isabel Lucas

 

 

 

A minha década de 40 passou muito depressa, diz-me. Quando fiz 40 anos lembro-me de pensar que tinha 10 anos à minha frente para fazer uma série de coisas que não me tinha atrevido a fazer até então. Coisas que achei que não eram mais adiáveis. E quando dou por mim a pensar que já tenho 47 anos assusto-me um bocadinho. Passou muito depressa e ainda não fiz nem um terço das coisas que pensava que iria fazer. Esta sensação de que o tempo voa pode ser um cliché, mas os clichés também existem por alguma razão. À medida que envelhecemos ganhamos uma noção da escassez do tempo, lembrando-nos de que nos falta pouco tempo (não sei bem para quê, mas decerto para qualquer coisa). Há tanta coisa que eu queria conhecer, fazer, aprender… Por isso cedo cada vez menos à preguiça e afasto-me cada vez mais do ruído, daquele que nos impede de ver o essencial. Eu, aos 20 anos, gostava muito de “preguiçar”, achava que tinha todo o tempo do mundo. Agora sei que não tenho. A idade também nos dá a noção de que é fundamental estarmos sozinhos, pararmos em silêncio, e eu cada vez valorizo mais esse silêncio. Gosto muito de estar sozinha com a minha curiosidade. Sempre gostei desde criança. Mas agora ainda mais.

 

Pergunto-lhe pelo livro, “ Viagem ao sonho americano” e sobre o que a fez embarcar nessa viagem. Estávamos perante uma mudança, responde-me. O primeiro presidente negro estava a sair e o que viria daí também seria uma mudança: ou seria eleita uma mulher, ou um homem de esquerda ou um homem como o Trump. Fosse qual fosse o resultado que daí viesse, alguma coisa iria mudar. Por outro lado, a literatura americana conta muito sobre a realidade do Estados Unidos. Consegue-se aprender muito sobre o que é a América através da literatura. Talvez tenha a ver com a procura de uma identidade, uma tentativa de digerir aquele país tão grande e tão diferente, feito de gente tão diferente mas que fala a mesma língua. Tudo a tentar entender-se numa mesma língua.

 

Quando comecei esta viagem, não sabia como ia ser, não estabeleci metas, fui-me deixando levar pelas obras, foi uma coisa muito vadia, muito marcada pelo acaso e talvez só a tenha feito com a abertura que acho que fiz por já não ter 20 ou 30 anos, mas sim mais de 40. Tentei libertar-me dos preconceitos todos que tinha. Levei o mínimo de coisas possíveis, não me importava de aparecer mais ou menos penteada, mais ou menos maquilhada. Tive um descomprometimento maior, um à-vontade maior com a minha imagem. Que talvez também tivesse a ver com o meu anonimato naquele lugar. Outra coisa que eu aprendi nesta viagem é que posso ser de qualquer lado. Ri-se. Estivesse onde eu estivesse achavam sempre que eu era dali. Fui de muitas nacionalidades que não eram a minha e isto dá-nos uma outra perspectiva daquilo que somos.

 

Pergunto-lhe pelo objecto que nos trouxe. Estas botas, diz-me apontando para os pés. Fizeram muitos quilómetros comigo. Comprei-as no dia em que comecei a fazer as reportagens que deram origem ao livro. Ia para a Califórnia e era suposto estar calor e eu só levava sandálias. Mas estava frio e acabei por comprá-las à última hora. Foram comigo para todo o lado. Subiram montes, andaram no deserto. Foram umas grandes parceiras nesta viagem.

 

Regressamos ao tema da idade e do tempo. Tenho 47 anos, não vou dizer que fisicamente é tão bom como ter 27, porque não é. Vivemos dentro de um corpo, e esse corpo envelhece, morre e é por si só uma fronteira. É o corpo que nos vai matar. Talvez por isso neguemos o tempo. Embora ao longo da vida sejamos vários rostos, há sempre um deles, uma imagem que fixamos. Temos uma ideia nossa de como somos, de como éramos e, por vezes, o espelho não nos devolve essa imagem e isso é difícil. Negar o tempo é uma maneira de não o enfrentar. Ele existe e as marcas que nos deixa, as rugas que nos deixa, são sinais dessa existência. As marcas que o tempo deixa no meu corpo são sinal da minha existência. Claro que todos gostamos de parecer mais novos, que nos digam que “estamos muito bem para a idade”. Mas talvez o estar bem para a idade seja não fazer um grande drama disso. O tempo também é uma ficção. Nós construímos muito à volta do tempo e, no fundo, inventámos esta ideia

 

 

Isabel Lucas

47 anos

Jornalista