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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Dulce Garcia

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Costumo dizer que os livros me salvaram. Sou de Alcochete que, apesar de ser muito perto de Lisboa, há 40 anos não era. Não havia muita oferta cultural e a minha vida mudou quando eu descobri a biblioteca. Sempre soube que queria trabalhar com livros, apesar de a vida me ter levado para o jornalismo. Opção da qual não me arrependo nada. Sorri e aponta para o livro que trouxe. O amor pelos livros levou-me até aqui, daí ter escolhido este objecto. Eu alimentava o sonho de escrever um livro desde os meus 16 anos. Há cerca de uns 4, vi numa página do “El Mundo” a história de uma mulher que vivia no aeroporto e fiquei com esta história na cabeça. Eu sabia que queria escrever um livro sobre isto. Até que um dia disse, é hoje. E foi. Publiquei-o o ano passado.

 

Pergunto-lhe se gosta de ter 47 anos. Muito, gosto muito, responde-me. Não gostava nada de voltar aos 20. A primeira parte da minha vida também não foi muito fácil. Depois, tive o meu primeiro filho aos 29 e os filhos salvam os pais, não é? Acho que comecei a viver melhor aos 35, e dos 37 aos 40 foi a libertação. Talvez a palavra é mesmo essa: libertação. No sentido em que assumes aquilo que realmente és. Eu nunca gostei de conflitos, de impor ordem. Por outro lado tinha uma grande necessidade de ser amada e respeitada. E isso acaba por se tornar insustentável, pois implica que assumas permanentemente um papel de perfeição. Até que há um momento em que percebes que nunca serás a mãe perfeita, a mulher perfeita, a profissional perfeita. E nesse abandonar da perfeição começamos a fazer as contas do que é que vale realmente a pena. Se vale a pena o esforço mantermos determinada situação ou pessoa na nossa vida. Essa libertação também vem do perdemos medo do fracasso, de dizer que falhámos. Há sempre um momento em que caímos e, curiosamente, há uma grande beleza nessa queda, porque é o fim da linha. Uma pessoa cai e percebe que sobrevive. Nesse sentido de sobrevivência nasce uma grande liberdade, um perder o medo. E encontramos a nossa voz, pois só perdendo o medo é que conseguimos encontrá-la.

 

As mulheres de 40 anos de hoje fazem parte de uma geração que cresceu por conta própria, não tínhamos definitivamente a importância que os nossos filhos têm hoje, crescemos de certa forma desamparados. Havia ainda muito aquela coisa do amor romântico, o divórcio ainda era uma coisa distante e burguesa. Éramos empurrados para a vida sem pensarmos muito nisso. E ainda hoje pensamos muito pouco sobre as coisas. Temos muito pouco consciência das coisas e de nós. Não paramos para pensar, só nos sabemos enterrar em coisas para fazer. Provavelmente para não pensar. E esquecemo-nos que pensar é fundamental para nos libertarmos.

 

Dulce Garcia

47 anos

Jornalista, escritora, editora.

 

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