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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Cristina Carvalho

69 anos

Escritora

 

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A Cristina Carvalho recebeu-nos em sua casa. Foi uma conversa que se prolongou pela tarde dentro, ao longo da qual falámos de muitas mais coisas para além do tempo. Afinal, foi também isso que quisemos transmitir com o projecto #maisde40: que o tempo é apenas uma das muitas dimensões que nos definem. Tanto eu como o Mário sentimos que fechámos este projecto da melhor maneira possível. Talvez o tenhamos sentido assim por esta conversa ter sido tão diferente de todas as outras, talvez por a Cristina ser a mais velha das 22 #maisde40 que entrevistámos, ou talvez porque as coisas, tal como o tempo, façam um sentido próprio, muito para além da rigidez daquilo que achamos suposto ser.

 

Começo por perguntar à Cristina como percepcionou os seus quarenta anos.

Os meus quarenta anos foram bastante sossegados, comparativamente aos meus 30 e aos meus 20, responde-me. Os meus trinta foram muito turbulentos (ri-se), mas no bom sentido, repare. Foi vida, uma década muito vivida. Relativamente aos meus 40 e à pergunta que me fez: tive o meu terceiro filho aos 41 e morreu o meu pai, quando eu tinha 47 anos. Estes são os momentos de maior importância nessa década. De mim própria não tenho nada a assinalar.

 

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E como lida com o seu envelhecimento? Pergunto.

Qual envelhecimento? Não estou a perceber. Ri-se. Não tenho pena de envelhecer. Tenho pena de morrer, isso tenho. A minha família, especialmente a da parte da minha mãe, é muito longeva, mesmo no tempo em que não se ia ao médico. Só que isto não quer dizer nada, pois eu estava completamente convencida que seria assim comigo, que seguiria esse padrão de morrer muito tarde, até que, em 2016, faço aquela maldita mamografia e me diagnosticam um cancro. Não há memória na minha família de haver um caso destes. Eu fui a primeira, que se saiba, de uma família longeva, a ter esta doença. E agora pergunta-me o que é o tempo? Eu não sei. Uma coisa destas muda a nossa forma de percecionar o tempo, muda tudo. O tempo transforma, mais nada. Aliás, nem sei bem o que é o tempo. Já a Alice do Lewis Carrol não sabia o que era o tempo. Nós não somos o que fomos, nem somos o que havemos de ser. As nossas células transformam-se, morrem, nascem, em milionésimos de segundo. Não sei se me reconheço, se não me reconheço e também não me preocupo muito com isso. Sei o que sou neste momento, e mesmo assim sem grandes certezas.

 

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Termino perguntando-lhe porque é que acha que há esta prisão tão grande à juventude, ao aspecto físico, principalmente da parte das mulheres.

Não sei, responde-me. O que pode levar uma pessoa a querer parecer aquilo que não é?

Porquê? Para quê? Não sei. E nem sei o que possa dizer sobre isso, pois é algo que não me passa pela cabeça. Uma pessoa tem os anos que tem. Tenho mais de 40? Tenho, pois tenho, aliás, quase mais 30 para além dos 40. E o que posso dizer sobre isso? Que ainda bem que os tenho, é sinal que estou aqui, que cheguei até aqui. A única coisa que não quero é ficar senil. Agora o resto, o aspecto? Não penso nisso. Não me preocupo com esse género de coisas, sinceramente. Os anos passam, é assim, é normal, passam por cima das árvores, passam por cima das águas, passam por cima de tudo. Tenho, sim, pena de morrer. Por tudo aquilo que ainda quero fazer. O resto é vida.

 

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