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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Ana Saragoça

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A questão do envelhecimento é especialmente complicada na profissão de actriz e em Portugal chega a ser violento, diz-me. Em Portugal, as actrizes a partir dos 40 e tal começam a entrar nas novelas apenas como cozinheiras, como criadas. E depois vemos actrizes de 36, 37 anos a fazerem de mães de actrizes que têm 23, 24 anos, o que é um absurdo e um insulto, tanto para estas quanto para com as outras mais velhas que estão sem trabalhar. E esquecem-se do enriquecimento que os actores mais velhos podem trazer a uma obra e aos colegas mais inexperientes. Infelizmente a experiência é, cada vez mais, desvalorizada, em troca da “juventude”. Mesmo noutras áreas também é assim. Já vi anúncios a pedirem tradutores com um máximo de 35 anos. O que é um completo absurdo, pois eu, por exemplo, sou muito melhor tradutora do que era aos 35. Isto é um ofício onde se vai aprendendo ao longo do tempo. Um tradutor mais velho será sempre melhor que um tradutor mais novo. E para não falar daquilo a que eu chamo “o padrão IPJ” dos escritores. Cheguei a ler uma crítica que perguntava “como é que é possível não se ter publicado antes dos 38 anos?”. E ignora-se completamente que precisamos de ter vida, de ter mundo, e que, para isso, é preciso passar pelo tempo. E isto é tanto pior se falarmos de escritoras, porque há quem não leia livros escritos por mulheres porque “são coisas de gajas”, e os grandes temas da humanidade, já se sabe, não fazem parte das “coisas de gajas”.

 

Pergunto-lhe como é que sente agora, com 51 anos. Olha, senti-me melhor aos 40 do que aos 30 e sinto-me melhor aos 50 do que aos 40, responde-me. Sinto-me muito melhor comigo própria, como mulher. Eu tentava desesperadamente agradar às pessoas, e no processo acabava por não agradar a ninguém. Ninguém gosta de pessoas que passam a vida em esforço para agradar. Hoje não, hoje encontrei a minha própria voz. E se por um lado tenho pena de não ter aproveitado mais os meus anos de juventude, por outro sei que sem isso, sem esse processo não teria encontrado a voz que tenho hoje.

 

Peço-lhe para falar sobre o objecto que trouxe. Esta bonequinha foi-me dada pela minha cunhada e, devido às mudanças da minha vida dos últimos tempos, chamou-lhe “New  Ana”. Representou muito para mim e resolvi adoptá-la como mascote. Esta “New Ana” é também consequência da idade. É o perceberes que a tua vida vai acabar, que és mortal, que não tens assim muito tempo e isso permite-te pensar que afinal vales mais do que muitas das pessoas às quais tentaste agradar. É o atreveres-te a pensar isto, atreveres-te a não ser modesta, atreveres-te a exigir mais da vida. Afinal, ensinaram-te que uma menina é modesta, que uma menina não se gaba, é humilde, discreta, que o sexo é uma coisa que se faz mas não se gosta e se se gosta não se diz. Até que chega a uma altura da nossa vida em que começamos a perguntar: Porquê? Porquê? E percebemos que a vida é curta de mais para que isto faça sentido. Chegamos a esta idade com uma sede enorme de viver. Sede de viver o resto da nossa vida.

 

Ana Saragoça

51 anos

Actriz, escritora, tradutora