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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Ana Maria Pereirinha

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No ano passado voltei a estudar. Decidi candidatar-me a um doutoramento. E acho que esta decisão teve a ver com os 50. Uma pessoa vai-se embrenhando numa vida profissional que cada vez mais se estreita, até que há um pânico que se apodera de nós. Dei por mim a ver o meu universo mental a mirrar e a pensar, tenho 50 anos e só tenho uma vida. Como é que eu quero passar o resto desta vida? Fiz então uma grande mudança. As pessoas dizem-me, ah, quem me dera ter essa coragem. Mas, para mim, não tem a ver com ter ou não ter coragem, simplesmente não podia ter sido de outra maneira. Não foi heroísmo, foi porque tinha de ser.

 

Pergunto-lhe se encara a passagem do tempo de uma forma tranquila. Angustiarmo- nos com o tempo não faz sentido. Quantos amigos nossos é que já foram partindo? Temos de ir vivendo com o que nos é possível, mudar o que podemos mudar e perdermos essa mania de sermos perfeitos.  Até dada altura queremos ser perfeitos e lutamos muito para ser as mães perfeitas, os melhores profissionais, os mais bonitos. Andamos numa corrida de ratos para sermos perfeitos, que nos derruba, nos faz sentir mal connosco. A propósito disso, trouxe um livro, “How to be perfect” do Ron Padgett. Tem um poema, com o mesmo nome, que nos dá conselhos sobre como ser perfeito. E é fantástico por que são coisas tão simples como: dorme bem, não dês conselhos, não tenhas medo de nada que não possas controlar, trata bem dos dentes e das gengivas, usa sapatos confortáveis. Ri-se. Se pensarmos bem, somos muito mais perfeitos quando usamos sapatos confortáveis.

 

Pergunto-lhe pelo objecto que trouxe. Trouxe este anel, que conta muitas coisas, uma delas é a história de uma amizade. Este anel foi feito por uma amiga talentosíssima, daquelas pessoas que nasceram para criar e dona de uma generosidade e abertura ao mundo e às pessoas, que fazem dela uma pessoa muito especial. Há 10 anos, eu estava numa encruzilhada pessoal muito grande e um dia fui ter com ela à oficina e ela estava numa luta tremenda com isto e eu estive ali, a vê-la a lutar. Passadas umas semanas vi este anel no meio de outros, e disse, este é para mim. Acho que este objecto tem muito a ver com o passar do tempo,  a evolução da nossa vida, com as coisas com as quais vamos lutando e com uma coisa em que eu acredito muito: a beleza da imperfeição. Esta beleza da imperfeição é algo que só se ganha com a idade. Sempre gostei de coisas velhas e antigas e de lhes dar uso, simplesmente porque têm uma história. Têm tempo e é ele quem lhes dá essa beleza imperfeita.

 

Tenho amigas que ficam muito deprimidas quando fazem anos. Ri-se. Eu acho que já nasci um bocadinho velha. Lembro-me de ter amigas no liceu cujo objectivo era fazerem 18 anos e mitificavam mesmo essa ideia. Uma dessas amigas, quando fez 18 anos, chorou que nem uma Madalena porque se sentia na mesma, porque não se sentia diferente.  E tinha amigas que aos 16 anos faziam operações aos joanetes por causa dos sapatos de salto alto. Eu nunca fui nada assim. A minha filosofia de vida sempre foi “deixa-me aproveitar enquanto posso”. Deixa-me ser perfeita com os meus sapatos confortáveis.

 

Ana Maria Pereirinha

52 anos

Directora de galeria de arte, parte do corpo editorial do site de poesia e crítica “Jogos Florais”, tradutora e estudante

 

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