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Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Mais de 40

Um projecto que celebra o tempo e as mulheres.

Ana Maria Pereirinha

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No ano passado voltei a estudar. Decidi candidatar-me a um doutoramento. E acho que esta decisão teve a ver com os 50. Uma pessoa vai-se embrenhando numa vida profissional que cada vez mais se estreita, até que há um pânico que se apodera de nós. Dei por mim a ver o meu universo mental a mirrar e a pensar, tenho 50 anos e só tenho uma vida. Como é que eu quero passar o resto desta vida? Fiz então uma grande mudança. As pessoas dizem-me, ah, quem me dera ter essa coragem. Mas, para mim, não tem a ver com ter ou não ter coragem, simplesmente não podia ter sido de outra maneira. Não foi heroísmo, foi porque tinha de ser.

 

Pergunto-lhe se encara a passagem do tempo de uma forma tranquila. Angustiarmo- nos com o tempo não faz sentido. Quantos amigos nossos é que já foram partindo? Temos de ir vivendo com o que nos é possível, mudar o que podemos mudar e perdermos essa mania de sermos perfeitos.  Até dada altura queremos ser perfeitos e lutamos muito para ser as mães perfeitas, os melhores profissionais, os mais bonitos. Andamos numa corrida de ratos para sermos perfeitos, que nos derruba, nos faz sentir mal connosco. A propósito disso, trouxe um livro, “How to be perfect” do Ron Padgett. Tem um poema, com o mesmo nome, que nos dá conselhos sobre como ser perfeito. E é fantástico por que são coisas tão simples como: dorme bem, não dês conselhos, não tenhas medo de nada que não possas controlar, trata bem dos dentes e das gengivas, usa sapatos confortáveis. Ri-se. Se pensarmos bem, somos muito mais perfeitos quando usamos sapatos confortáveis.

 

Pergunto-lhe pelo objecto que trouxe. Trouxe este anel, que conta muitas coisas, uma delas é a história de uma amizade. Este anel foi feito por uma amiga talentosíssima, daquelas pessoas que nasceram para criar e dona de uma generosidade e abertura ao mundo e às pessoas, que fazem dela uma pessoa muito especial. Há 10 anos, eu estava numa encruzilhada pessoal muito grande e um dia fui ter com ela à oficina e ela estava numa luta tremenda com isto e eu estive ali, a vê-la a lutar. Passadas umas semanas vi este anel no meio de outros, e disse, este é para mim. Acho que este objecto tem muito a ver com o passar do tempo,  a evolução da nossa vida, com as coisas com as quais vamos lutando e com uma coisa em que eu acredito muito: a beleza da imperfeição. Esta beleza da imperfeição é algo que só se ganha com a idade. Sempre gostei de coisas velhas e antigas e de lhes dar uso, simplesmente porque têm uma história. Têm tempo e é ele quem lhes dá essa beleza imperfeita.

 

Tenho amigas que ficam muito deprimidas quando fazem anos. Ri-se. Eu acho que já nasci um bocadinho velha. Lembro-me de ter amigas no liceu cujo objectivo era fazerem 18 anos e mitificavam mesmo essa ideia. Uma dessas amigas, quando fez 18 anos, chorou que nem uma Madalena porque se sentia na mesma, porque não se sentia diferente.  E tinha amigas que aos 16 anos faziam operações aos joanetes por causa dos sapatos de salto alto. Eu nunca fui nada assim. A minha filosofia de vida sempre foi “deixa-me aproveitar enquanto posso”. Deixa-me ser perfeita com os meus sapatos confortáveis.

 

Ana Maria Pereirinha

52 anos

Directora de galeria de arte, parte do corpo editorial do site de poesia e crítica “Jogos Florais”, tradutora e estudante

 

Dulce Garcia

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Costumo dizer que os livros me salvaram. Sou de Alcochete que, apesar de ser muito perto de Lisboa, há 40 anos não era. Não havia muita oferta cultural e a minha vida mudou quando eu descobri a biblioteca. Sempre soube que queria trabalhar com livros, apesar de a vida me ter levado para o jornalismo. Opção da qual não me arrependo nada. Sorri e aponta para o livro que trouxe. O amor pelos livros levou-me até aqui, daí ter escolhido este objecto. Eu alimentava o sonho de escrever um livro desde os meus 16 anos. Há cerca de uns 4, vi numa página do “El Mundo” a história de uma mulher que vivia no aeroporto e fiquei com esta história na cabeça. Eu sabia que queria escrever um livro sobre isto. Até que um dia disse, é hoje. E foi. Publiquei-o o ano passado.

 

Pergunto-lhe se gosta de ter 47 anos. Muito, gosto muito, responde-me. Não gostava nada de voltar aos 20. A primeira parte da minha vida também não foi muito fácil. Depois, tive o meu primeiro filho aos 29 e os filhos salvam os pais, não é? Acho que comecei a viver melhor aos 35, e dos 37 aos 40 foi a libertação. Talvez a palavra é mesmo essa: libertação. No sentido em que assumes aquilo que realmente és. Eu nunca gostei de conflitos, de impor ordem. Por outro lado tinha uma grande necessidade de ser amada e respeitada. E isso acaba por se tornar insustentável, pois implica que assumas permanentemente um papel de perfeição. Até que há um momento em que percebes que nunca serás a mãe perfeita, a mulher perfeita, a profissional perfeita. E nesse abandonar da perfeição começamos a fazer as contas do que é que vale realmente a pena. Se vale a pena o esforço mantermos determinada situação ou pessoa na nossa vida. Essa libertação também vem do perdemos medo do fracasso, de dizer que falhámos. Há sempre um momento em que caímos e, curiosamente, há uma grande beleza nessa queda, porque é o fim da linha. Uma pessoa cai e percebe que sobrevive. Nesse sentido de sobrevivência nasce uma grande liberdade, um perder o medo. E encontramos a nossa voz, pois só perdendo o medo é que conseguimos encontrá-la.

 

As mulheres de 40 anos de hoje fazem parte de uma geração que cresceu por conta própria, não tínhamos definitivamente a importância que os nossos filhos têm hoje, crescemos de certa forma desamparados. Havia ainda muito aquela coisa do amor romântico, o divórcio ainda era uma coisa distante e burguesa. Éramos empurrados para a vida sem pensarmos muito nisso. E ainda hoje pensamos muito pouco sobre as coisas. Temos muito pouco consciência das coisas e de nós. Não paramos para pensar, só nos sabemos enterrar em coisas para fazer. Provavelmente para não pensar. E esquecemo-nos que pensar é fundamental para nos libertarmos.

 

Dulce Garcia

47 anos

Jornalista, escritora, editora.

 

Natália Pona

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Tenho uma paixão por livros, blocos de notas, cadernos, diz-nos, enquanto nos mostra o objecto que trouxe: um “Livro em branco”. Não vou a lado nenhum sem um livrinho, desde pequena. Neles registo todas as viagens que fiz, todos os momentos a dois, ou mesmo sozinha, de que me queira lembrar mais tarde. Este (livro) foi-me dado muito antes de eu o começar a utilizar. Um dia surgiu-me a ideia de registar as primeiras vezes de qualquer coisa das minhas filhas: a primeira vez que viajaram, que foram ao cinema. Mas, depois, comecei  a registar o que elas diziam. Está cheio de momentos destes, escritos tal como se passaram. Quando a minha filha mais velha fez 18 anos ofereci-lhe o livro dela, no qual aparecem muitos momentos que aqui registei. E fiz o mesmo nos 18 da minha segunda filha e tenciono fazer o mesmo aos outros quatro. Acho que é uma prenda bonita, que lhes fica para a vida. Porque é que este livro me conta? Sou uma pessoa muito emotiva. E este livro reflecte isso, esses momentos que me marcam, que me emocionam dessa forma. Este livro retrata-me tal e qual como eu sou. Eu sou estes momentos vividos com os meus seis filhos. Dizem tudo de mim. A minha vida é feita destas histórias.

 

Pergunto-lho pelo tema que a trouxe até nós, o envelhecimento. Não há grande remédio senão aceitar o envelhecimento, responde. Claro que me olho ao espelho e vejo diferenças. Mas não faz sentido não aceitarmos essas diferenças, esses sinais do tempo. Eles são aquilo que somos. Aponta para a madeixa branca do cabelo, há uns tempos pintaram a minha madeixa e eu fiquei desorientada, fiquei um fim-de-semana inteiro em casa a tentar conhecer-me. Ter aqui uma mancha branca é a minha forma de estar, eu também vejo o mundo através destes cabelos brancos. Faz parte de mim.

 

O que me assusta não é propriamente o meu envelhecimento, mas o dos outros que me rodeiam, dos meus pilares, dos meus pais, porque envelhecer também significa irmos perdendo pessoas importantes da nossa vida. Isso para mim é um grande golpe. Isso magoa-me. O envelhecimento também me sensibiliza mais agora, por trabalhar no local onde estou (Centro Neurológico Sénior). Ver o envelhecimento doente, ver pessoas que foram extremamente válidas para a sociedade totalmente dependentes mexe muito comigo. A doença neurológica é cruel. É demolidor ver essas pessoas que em dois anos perdem totalmente o controlo do corpo estando lúcidas. Entramos ali numa fase de perdas, de isolamento. É pesado. E estas doenças são doenças da família inteira. A família também adoece com elas.

 

Esta realidade apanhou-me numa fase da minha vida em que, devido à pediatria, eu ainda via tudo com floreados. Nas crianças é tudo novo, tudo bonito (apesar de por vezes também vivermos situações dramática). Esta fase do envelhecimento, não, é o fim.

 

E os 50? Pergunto. Nunca pensei muito neles, confesso. A não ser na véspera. Faltavam uns minutos para a meia-noite e pensei, vai ser agora. Deixei escapar uma lagrimita e comecei a escrever. Uma reflexão, um resumo deste meu meio século de vida. Se noto diferenças em mim? Pensa um instante. Talvez. Agora, sou mais genuína, responde, tenho menos filtros. Acho que sou menos contida. Se tenho de dizer alguma digo, se tenho de chorar, choro, se tenho de rir, rio. Acho que nesta idade estamos muito mais seguras das nossas convicções, da nossa maturidade. Sem dúvida que sou muito mais interventiva na sociedade agora, do que era antes. Talvez porque tenha uma noção muito mais clara de que a vida é uma passagem, uma passagem rápida. E mesmo tendo essa noção de que temos de aproveitar o tempo ele escapa-nos sempre das mãos. Por exemplo, estamos agora aqui a conversar e daqui a pouco já passaram uns meses e irá parecer-nos que foi ontem. Às vezes, digo às minhas filhas mais velhas, vocês não sabem, mas ainda há dias eu tinha a vossa idade. E parece-me mesmo que foi há dias.

 

Natália Pona

50 anos

Médica

Isabel Lucas

 

 

 

A minha década de 40 passou muito depressa, diz-me. Quando fiz 40 anos lembro-me de pensar que tinha 10 anos à minha frente para fazer uma série de coisas que não me tinha atrevido a fazer até então. Coisas que achei que não eram mais adiáveis. E quando dou por mim a pensar que já tenho 47 anos assusto-me um bocadinho. Passou muito depressa e ainda não fiz nem um terço das coisas que pensava que iria fazer. Esta sensação de que o tempo voa pode ser um cliché, mas os clichés também existem por alguma razão. À medida que envelhecemos ganhamos uma noção da escassez do tempo, lembrando-nos de que nos falta pouco tempo (não sei bem para quê, mas decerto para qualquer coisa). Há tanta coisa que eu queria conhecer, fazer, aprender… Por isso cedo cada vez menos à preguiça e afasto-me cada vez mais do ruído, daquele que nos impede de ver o essencial. Eu, aos 20 anos, gostava muito de “preguiçar”, achava que tinha todo o tempo do mundo. Agora sei que não tenho. A idade também nos dá a noção de que é fundamental estarmos sozinhos, pararmos em silêncio, e eu cada vez valorizo mais esse silêncio. Gosto muito de estar sozinha com a minha curiosidade. Sempre gostei desde criança. Mas agora ainda mais.

 

Pergunto-lhe pelo livro, “ Viagem ao sonho americano” e sobre o que a fez embarcar nessa viagem. Estávamos perante uma mudança, responde-me. O primeiro presidente negro estava a sair e o que viria daí também seria uma mudança: ou seria eleita uma mulher, ou um homem de esquerda ou um homem como o Trump. Fosse qual fosse o resultado que daí viesse, alguma coisa iria mudar. Por outro lado, a literatura americana conta muito sobre a realidade do Estados Unidos. Consegue-se aprender muito sobre o que é a América através da literatura. Talvez tenha a ver com a procura de uma identidade, uma tentativa de digerir aquele país tão grande e tão diferente, feito de gente tão diferente mas que fala a mesma língua. Tudo a tentar entender-se numa mesma língua.

 

Quando comecei esta viagem, não sabia como ia ser, não estabeleci metas, fui-me deixando levar pelas obras, foi uma coisa muito vadia, muito marcada pelo acaso e talvez só a tenha feito com a abertura que acho que fiz por já não ter 20 ou 30 anos, mas sim mais de 40. Tentei libertar-me dos preconceitos todos que tinha. Levei o mínimo de coisas possíveis, não me importava de aparecer mais ou menos penteada, mais ou menos maquilhada. Tive um descomprometimento maior, um à-vontade maior com a minha imagem. Que talvez também tivesse a ver com o meu anonimato naquele lugar. Outra coisa que eu aprendi nesta viagem é que posso ser de qualquer lado. Ri-se. Estivesse onde eu estivesse achavam sempre que eu era dali. Fui de muitas nacionalidades que não eram a minha e isto dá-nos uma outra perspectiva daquilo que somos.

 

Pergunto-lhe pelo objecto que nos trouxe. Estas botas, diz-me apontando para os pés. Fizeram muitos quilómetros comigo. Comprei-as no dia em que comecei a fazer as reportagens que deram origem ao livro. Ia para a Califórnia e era suposto estar calor e eu só levava sandálias. Mas estava frio e acabei por comprá-las à última hora. Foram comigo para todo o lado. Subiram montes, andaram no deserto. Foram umas grandes parceiras nesta viagem.

 

Regressamos ao tema da idade e do tempo. Tenho 47 anos, não vou dizer que fisicamente é tão bom como ter 27, porque não é. Vivemos dentro de um corpo, e esse corpo envelhece, morre e é por si só uma fronteira. É o corpo que nos vai matar. Talvez por isso neguemos o tempo. Embora ao longo da vida sejamos vários rostos, há sempre um deles, uma imagem que fixamos. Temos uma ideia nossa de como somos, de como éramos e, por vezes, o espelho não nos devolve essa imagem e isso é difícil. Negar o tempo é uma maneira de não o enfrentar. Ele existe e as marcas que nos deixa, as rugas que nos deixa, são sinais dessa existência. As marcas que o tempo deixa no meu corpo são sinal da minha existência. Claro que todos gostamos de parecer mais novos, que nos digam que “estamos muito bem para a idade”. Mas talvez o estar bem para a idade seja não fazer um grande drama disso. O tempo também é uma ficção. Nós construímos muito à volta do tempo e, no fundo, inventámos esta ideia

 

 

Isabel Lucas

47 anos

Jornalista

Isabela Figueiredo

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Fiz 55 anos no dia 1 de Janeiro. Não gosto nada desse dia. É um dia muito triste, está tudo fechado, as lojas e os cafés, um dia em que me lembro sempre de que estou cá, que estou na Terra, que estou viva e do que estou aqui a fazer. E por isso é um dia do qual eu fujo bastante. Fujo de toda a gente, não deixo ninguém dar-me os parabéns. Mas este ano foi o primeiro ano em que me perguntei,  “De que é que eu fujo?”, “Qual foi o momento da minha vida em que deixei de gostar de fazer anos?”. E percebi que deixei de gostar de fazer anos quando me separei dos meus pais, quando vim para Portugal. Tinha 13 anos. É aí eu deixo de gostar de fazer anos. Nessa altura, faço anos num contexto de vida muito difícil, onde eu tenho apenas de sobreviver. Nesses primeiros anos de vida, em Portugal, eu tenho de reaprender a viver: é tudo novo para mim, tudo muito difícil. Sou uma menina sozinha, longe do pai e da mãe, que está naquela idade em que é suposto ser rebelde, de questionar tudo e é amputada disso porque tem de ser muito racional para prevalecer. Ninguém prevalece no meio da loucura. Esse momento é um momento de grande fractura na minha identidade. Mas só tenho consciência disso agora. E tenho muito orgulho da menina que fui: muito forte, tenaz, sempre com esperança e isso num contexto totalmente adverso. Todo o meu percurso é um percurso de grande desamor. E nesse percurso de desamor resta-me o quê? Amar-me, ser capaz de me fortalecer no meio da confusão que foi o PREC.

 

Peço-lhe para me falar do objecto que trouxe. Olha, este cão foi-me dado há cerca de 2 ou 3 anos por uma vizinha que mora no meu prédio. O cão tinha-lhe sido dado pela própria mãe e ela deu-mo a mim. Essa minha vizinha ajudou-me muito numa altura em que eu precisava. Numa altura em que o meu pai estava incapacitado numa cadeira de rodas e que eu não o conseguia tirar de casa por causa de 4 degraus que existem à saída do elevador do prédio. E o marido dela, da altura, que era um homem forte, pegava na cadeira de rodas do meu pai e ultrapassava aqueles 4 degraus. Era ele o mediador entre a prisão e a liberdade do meu pai. Essa foi uma época muito difícil para mim, e a minha vizinha e o marido dela não sabem o quão importantes foram para mim. Este cão também me representa porque os cães sempre foram os meus companheiros de vida. Quando eu escolhi este objecto foi nisto que eu pensei primeiro, no meu amor aos cães. Mas depois pensei, espera, este cão foi-me dado pela Raquel. E essa é outra história que este objecto conta.

 

Pergunto-lhe se gosta de ter 55 anos. Sabes, curiosamente, acho que sou mais bonita agora. Acho que os meus traços com o tempo se apuraram e se tornaram mais bonitos. Eu olho para as fotografias dos meus vinte anos e é claro que lhes encontro beleza, mas agora encontro mais. A minha pele pode ter menos vigor, estar mais envelhecida, mas gosto do que vejo. Eu gosto muito de rugas. Gosto de ver caras de mulheres com rugas. Detesto ver caras com botox, ficam inchadas, estranhas. Gosto de rugas porque têm história, tal como as cicatrizes. Explicam o que viemos cá fazer. E nós viemos cá viver, apanhar rugas e cicatrizes. A vida também é dificuldade e dor e precisamos da dificuldade e da dor para que isto tenha sentido. Sabes? Para mim o tempo é depuramento. O tempo depura. Envelhecer é depuração. É depurar o pensamento, aprender a conhecer os outros, o que te rodeia. Eu gosto desta ideia de ser mais velha. Tenho medo de alguma incapacidade que a idade traz, mas não tenho medo do envelhecimento. Consigo imaginar-me velha. Acho que vou ser uma velha extraordinariamente bem-disposta e divertida. Capaz de aliviar os medos e o fardo dos outros.

 

E a escrita? Pergunto-lhe. O meu processo de vida e o meu processo de escrita são muito parecidos, responde-me. Eu vou e sou levada. Nunca tive uns planos de vida muito concretos. Eu nunca decidi:  “Eu quero ser escritora”. Bem, era um sonho, uma quimera. Mas não sabia como se fazia. Mas fui-me aproximando da escrita por outras formas: pelo jornalismo, pela docência. Ser jornalista era escrever e ser professora era ensinar a ler e a escrever. Eu, sem querer, vim ter àquilo que queria. Isto é o que eu sempre quis ser e nunca ousei. Porque eu não nasci rica, se tivesse nascido noutra classe social e cultural, eu podia ter dito que queria ser escritora. Mas eu tive a consciência que não podia ser do “pé para mão” e fui subindo os degrauzinhos, ou entrando pela porta do lado. E vim cá ter. Até este lugar.

 

Isabela Figueiredo

55  anos

Escritora

Ana Saragoça

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A questão do envelhecimento é especialmente complicada na profissão de actriz e em Portugal chega a ser violento, diz-me. Em Portugal, as actrizes a partir dos 40 e tal começam a entrar nas novelas apenas como cozinheiras, como criadas. E depois vemos actrizes de 36, 37 anos a fazerem de mães de actrizes que têm 23, 24 anos, o que é um absurdo e um insulto, tanto para estas quanto para com as outras mais velhas que estão sem trabalhar. E esquecem-se do enriquecimento que os actores mais velhos podem trazer a uma obra e aos colegas mais inexperientes. Infelizmente a experiência é, cada vez mais, desvalorizada, em troca da “juventude”. Mesmo noutras áreas também é assim. Já vi anúncios a pedirem tradutores com um máximo de 35 anos. O que é um completo absurdo, pois eu, por exemplo, sou muito melhor tradutora do que era aos 35. Isto é um ofício onde se vai aprendendo ao longo do tempo. Um tradutor mais velho será sempre melhor que um tradutor mais novo. E para não falar daquilo a que eu chamo “o padrão IPJ” dos escritores. Cheguei a ler uma crítica que perguntava “como é que é possível não se ter publicado antes dos 38 anos?”. E ignora-se completamente que precisamos de ter vida, de ter mundo, e que, para isso, é preciso passar pelo tempo. E isto é tanto pior se falarmos de escritoras, porque há quem não leia livros escritos por mulheres porque “são coisas de gajas”, e os grandes temas da humanidade, já se sabe, não fazem parte das “coisas de gajas”.

 

Pergunto-lhe como é que sente agora, com 51 anos. Olha, senti-me melhor aos 40 do que aos 30 e sinto-me melhor aos 50 do que aos 40, responde-me. Sinto-me muito melhor comigo própria, como mulher. Eu tentava desesperadamente agradar às pessoas, e no processo acabava por não agradar a ninguém. Ninguém gosta de pessoas que passam a vida em esforço para agradar. Hoje não, hoje encontrei a minha própria voz. E se por um lado tenho pena de não ter aproveitado mais os meus anos de juventude, por outro sei que sem isso, sem esse processo não teria encontrado a voz que tenho hoje.

 

Peço-lhe para falar sobre o objecto que trouxe. Esta bonequinha foi-me dada pela minha cunhada e, devido às mudanças da minha vida dos últimos tempos, chamou-lhe “New  Ana”. Representou muito para mim e resolvi adoptá-la como mascote. Esta “New Ana” é também consequência da idade. É o perceberes que a tua vida vai acabar, que és mortal, que não tens assim muito tempo e isso permite-te pensar que afinal vales mais do que muitas das pessoas às quais tentaste agradar. É o atreveres-te a pensar isto, atreveres-te a não ser modesta, atreveres-te a exigir mais da vida. Afinal, ensinaram-te que uma menina é modesta, que uma menina não se gaba, é humilde, discreta, que o sexo é uma coisa que se faz mas não se gosta e se se gosta não se diz. Até que chega a uma altura da nossa vida em que começamos a perguntar: Porquê? Porquê? E percebemos que a vida é curta de mais para que isto faça sentido. Chegamos a esta idade com uma sede enorme de viver. Sede de viver o resto da nossa vida.

 

Ana Saragoça

51 anos

Actriz, escritora, tradutora

Cristina de Montezo

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Na minha década de 40 aconteceu tudo aquilo que nunca ninguém quer que lhe aconteça, confessa-me. Entre os 40 e os 49 fiz todas aquelas mudanças que todos tememos fazer: mudar de carreira, terminar uma relação e até perder um pai. Se isto me tivesse acontecido aos 20 teria enlouquecido, certamente. Mas aos 40 já tive uma maturidade, uma sabedoria para poder levar tudo de uma forma mais tranquila.

 

Pergunto-lhe se se acha mais bonita agora do que aos 20. Eu era mais bonita quando tinha 20 e tal e mas não sabia, responde-me. Agora sei tirar muito mais partido do meu corpo e da minha fisionomia, tendo consciência que envelheci. Às vezes, encontro pessoas que não me vêem há 20 anos e me dizem, agora estás mais bonita. Mas não, não estou. A diferença é que eu agora não me escondo. E depois acho que me tornei numa pessoa muito melhor, muito menos centrada nas minhas necessidades. E isso transparece. Aos 20 eu queria ser perfeita. Mas perfeitas só são as máquinas ou os deuses. E quando perdi essa necessidade, essa preocupação de ser perfeita tornei-me mais feliz. Mas acima de tudo senti: “eu não tenho de provar nada a ninguém”.

 

A minha avó dizia-me muitas coisas, que na minha infância eu não percebia e que hoje fazem um sentido incrível. Uma das coisas que ela dizia era: nós só somos bons enquanto o mundo quer. Acho que ela falava da ideia que os outros têm de nós. E eu senti na minha pele que quando me libertei disso, dessa prisão do que os outros podem pensar de nós, fiquei muito melhor. Hoje não tenho medo de dizer que não gosto, que não quero, de mostrar as minhas fragilidades. Hoje tenho coragem de mostrá-las, o que me torna mais forte.

 

Peço-lhe para me falar um pouco da sua mudança profissional. Trabalhei 20 anos na indústria farmacêutica. Foram 20 anos muito intensos. Quando saí abri uma empresa minha, uma empresa de coaching. E foi uma mudança muito grande. No meu emprego anterior eu estava sempre rodeada por pessoas. E essa mudança fez-me ver que eu preciso de pessoas, que eu gosto de estar entre pessoas. Porque podes ver o teu reflexo nos outros. É nos outros que consegues ver os teus pontos fortes e fracos. É com os outros que consegues crescer.

 

Antes de sair, diz-me: Sabes? Hoje, fui a um funeral de um amigo que morreu com 50 anos. Com 50 anos! A vida é mesmo curta. Demasiado curta. E isso faz-nos pensar. Nós não sabemos quanto tempo é que “isto” vai durar e por isso não podemos, não devemos, continuar a adiar aquilo que queremos fazer. Isto é mesmo curto. Mas o bom da vida é que estamos sempre a tempo de pensar que ainda podemos fazer. O bom da vida e do envelhecer.

 

Cristina de Montezo

49 anos

Coach  e Gestora de equipa

Susana Ribeiro

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Quando vi o teu vídeo, a falar sobre este projecto, houve uma sineta qualquer que tocou na minha cabeça, diz-me. Fez todo o sentido, porque acho que há em mim uma celebração da década dos 40 . Uma celebração, repete, sorrindo. Há aquela coisa de “ai, agora vou chegar aos 40” como se fosse uma coisa muito séria, muito pesada. Mas comigo não foi nada disso. Pelo contrário, está a ser a década das minhas concretizações. Sendo que a maior concretização de todas foi ser mãe e construir a minha família nuclear. Sorri, sim, está a ser a melhor década de sempre. Claro que ser mãe aos 44 tem diferenças. Há alturas em que me lembro que já não tenho a energia dos 20 ou dos 30. Mas ter mais de 40 também é isso: ter a consciência dos nossos limites. Tens noção dos teus limites e não te sentes menor por isso. É aquela década em que morre de vez aquela ilusão que podes ser “super mulher”. Não podes nada. E ainda bem.

 

Pergunto-lhe o que é que de melhor lhe trouxeram os 40. Tranquilidade, responde-me. Sim, se eu tivesse de escolher uma palavra que definisse esta fase, seria “tranquilidade”. Por oposição às décadas dos 30 e dos 20 que são cheias de adrenalina e urgência. E quando eu falo de tranquilidade não estou a dizer que tenha agora a vida mais estável do mundo. Nada disso. Muito pelo contrário, isto está a ser uma década de correr riscos. Estou a falar de outro tipo de tranquilidade. Lembro-me, por exemplo, de aos 30, ficar desorientada quando não tinha nada para fazer. “O que é que eu faço com todo este tempo livre, com este silêncio? Percebes? Hoje, é o oposto. Preciso desse silêncio, desse tempo. O que antes eu achava vazio agora preenche-me.

 

E que riscos correste? Pergunto-lhe. Os riscos que advêm de escolheres viver os teus sonhos, responde-me. Tu chegas a uma certa fase da tua vida em que tens de fazer escolhas. E uma das coisas que a idade nos traz é a noção que a não decisão também é uma escolha. Mas sei que há quem lide menos bem com isto. Para mim, foi um processo natural porque não tenho medo da mudança. E esta mudança foi feita na altura certa. Ri-se. Os 40 apareceram na altura certa. Porque para chegar aos 40 precisei de passar por muito mais do que pelos 30 ou pelos 20. Tive de fazer lutos, tive de voltar páginas. Faz uma pausa e olha-me. Sim, tem sido uma década intensa. E ainda bem.

 

Susana Ribeiro

44 anos

Assessora de imprensa

Maria Vlachou

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A conversa com a Maria voou. Quase que me esquecia de lhe fazer perguntas sobre o tempo e a idade. Já desconfiava que assim fosse. Quando a convidei, também o fiz  por admirar o seu trabalho na Acesso Cultura, uma associação sem fins lucrativos que promove a melhoria das condições de acesso – nomeadamente físico, social e intelectual – aos espaços culturais e à oferta cultural, em Portugal e no estrangeiro.

 

A cultura é uma componente muito importante se quisermos imaginar um mundo melhor, diz-me. No entanto, as pessoas muitas vezes não sentem que a dita cultura formal seja para elas. Seja pela forma como se apresenta e comunica uma dada exposição ou pela forma como se comunica uma dada temática a discutir. E esta má comunicação torna-se uma barreira entre as pessoas e a cultura. As pessoas sentem, “isto não é para mim”. 

 

E na minha opinião isto acontece por várias razões. Uma delas é simplesmente por não haver interesse da parte de algumas instituições. Estas estão satisfeitas com o grupo exclusivo e restrito para quem produzem essa cultura. Outra razão é porque estamos habituados a trabalhar de uma determinada forma. Sempre trabalhámos assim, quem está habituado gosta, quem não está ou quem não percebe também não vai dizer que não percebeu ou que não gosta. Por isso continuamos a fazer o mesmo na ilusão de que estamos a fazer bem só porque algumas pessoas batem palmas. Mas isto também começa a mudar em alguns países. É o caso do Reino Unido. Há uma grande viragem de atitude no governo britânico, no Arts Council. Este percebeu que, ao financiar sempre as mesmas instituições e apenas um determinado tipo de cultura, tanto na forma de fazer, como de usufruir, não diversificava nem alargava o seu ciclo de relações com o público. Neste momento há uma viragem nessa atitude. Por exemplo: tornar quem consome cultura em co-criador. Isso é uma grande mudança.

 

Pergunto-lhe se o envelhecimento faz parte da nossa cultura. Faz parte, mas não lidamos bem, responde-me. Não somos capazes de ver a beleza de estarmos a envelhecer, que não é necessariamente uma beleza física. É tudo aquilo que a pessoa traz dentro dela. E para ver isso é preciso vontade, disponibilidade. Se lidássemos melhor decerto as pessoas ficariam mais apaziguadas, haveria menos pressão. Ri-se. Havia menos (de)pressão.

 

Gostas de envelhecer? Pergunto-lhe. Sorri. Até agora sim. Até agora todas as alterações que vejo em mim na minha cara e no meu corpo não me incomodam nem me entristecem, sinto-me bem. E até há momentos em que sinto mais bonita agora do que quando era mais nova. Talvez porque sinta que minha cara se reflecte o meu percurso até aqui.

 

Então não és daquelas pessoas que gostavam de ter menos 10 anos, comento. Ri-se, não, de maneira nenhuma. Estou muito feliz assim. Tenho maior paz. À medida que os anos passam as ideias sobre algumas coisas ficam mais arrumadas e dão lugar a uma fase nova. É uma outra forma de estar que me agrada muito. Já sei quais são as minhas prioridades na minha vida. Ficaram muito claras. Estou muito feliz assim, repete.

 

Maria Vlachou

47 anos

Gestão e Comunicação

Isabel Zibaia Rafael

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Eu e a Isabel temos duas coisas em comum: a culinária e o mudar de vida. A conversa foi, por isso, fácil. Falámos do prazer de cozinhar, para nós e para os outros e de como cozinhar é uma forma de transmitir afectos e celebrar a vida.

 

A comida para mim é uma forma de felicidade, diz-me. Uma felicidade partilhada à mesa, um bocadinho de nós que podemos dar aos outros, misturando sabores, ingredientes e amor. A comida traz alegria. Repara, quando numa festa a comida é má, ninguém sorri. Mas se, pelo contrário, a comida estava boa, toda a gente fala sobre isso, há boa disposição. Há esta magia à volta do que comemos e da mesa. Uma magia através da qual damos um bocadinho de nós. Uma magia que nos traz memória queridas. Lembro-me, por exemplo, da primeira mousse de chocolate que comi com ovos caseiros. Poderão passar 500.000 mousses, mas aquela, por ser a primeira, por ser especial e pelo que representa, será sempre única. Esta, também, é a magia da comida.

 

Pergunto-lhe como começou esta aventura pela culinária. Começou em 2006, com o blogue, o “Cinco quartos de laranja”, responde-me. Mas começou como um hobbie, uma forma de eu ocupar o meu tempo livre com algo que gostava muito de fazer. Nunca pensei, quando o abri, que alguma vez chegaria onde chegou, nunca. A culinária foi algo que foi ganhando terreno na minha vida. E depois há um dia que em percebes que aquilo é o que te traz alegria e entusiasmo. Que é aquilo que te ocupa o pensamento, as horas. E o bichinho do “e se?” começa a crescer. Até que um dia é o dia e tomas uma decisão, arriscas. E dás o salto, digo-lhe eu. Sim, responde, dás o salto. Mas esse salto também é um momento de muitas dúvidas e angústias. Largar o certo pelo incerto dá medo. Mas depois o caminho faz-se e o medo vai-se perdendo. E vale a pena.

 

Pergunto-lhe se o facto de ter 41 anos pesou nessa mudança de vida. Talvez, responde-me. Aos 40 comecei a olhar para vida de outra maneira. Começamos a pensar, se calhar isto não dura para sempre. Ri-se. Se estiver a meio da vida já não é mau. Se for assim tenho de aproveitar muito bem a outra metade. É certo que temos a noção que fisicamente as coisas não vão melhorar. Temos então de viver o tempo que nos resta da melhor forma, fazer o que nos faz feliz. Porque continuamos a sonhar. Eu pelo menos ainda continuo, ou se calhar até sonho mais do que quando era mais nova. Tenho ainda muita coisa que gostaria e espero fazer. Espero fazer porque os 40 também nos trazem uma maior clareza sobre as nossas forças, os nossos pontos fracos e as nossas limitações. Aos 40 já não tens a vida toda à tua frente, mas a que tens é mais plena, mais lúcida.

 

Quando lhe pergunto de que é que se orgulha mais dos seus 40 anos, responde-me sem hesitação:de não ter na minha vida nenhum “ai, se eu tivesse feito…”.

 

E eu penso que talvez o segredo para termos dias mais felizes esteja aí mesmo. No não ficarmos no que devíamos ter feito.

 

Isabel Zibaia Rafael

45 anos

Blogger, cozinheira e escritora de comida.

Cristina Basílio

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Olha, se não te importas vou buscar o meu leque, que está aqui muito calor, disse-me a Cristina antes de começarmos a nossa conversa. E foi com o leque vermelho que a Cristina foi pontuando a nossa conversa, das mais tranquilas e doces que aconteceram na Silver Room.

 

Perguntei-lhe quais as principais diferenças que encontrava entre Cristina de agora e a Cristina de 28 anos ano. Ui, tantas, respondeu. Primeiro são 20 anos que nos separam. E 20 anos de muita vivência, de encontro com muitas pessoas, pessoas essas que pela sua diversidade, pelo seu tempo, nos vão dando outra perspectiva. As pessoas que cruzam o nosso caminho são fundamentais para irmos moldando a forma de ver o mundo. Depois, aos 28, eu era uma pessoa um bocadinho medrosa, menos segura de mim. A Cristina de 48 é mais resolvida, sente que tem muito mais caminho para andar. E estes 20 anos deram-me uma maior capacidade de me rir de mim própria. Levo-me menos a sério. E isso é muito bom, pois levarmo-nos pouco a sério ajuda-nos a avançar e a perder medo. Pelo caminho desses 20 anos fui largando o medo daquilo que os outros pensariam de mim. Hoje estou-me a marimbar para isso. Ri-se e fecha o leque.  Quanto mais atenção dás às opiniões dos outros, menos te ouves no meio de tanto ruído. E acho que a idade, o tempo, nos ensina a ouvir-nos. E aprendermos a rir de nós próprios também nos torna mais tolerantes connosco. A aceitarmo-nos como somos. A vermo-nos como realmente somos. Acho que a Cristina de agora talvez seja uma pessoa melhor, uma pessoa com boa energia, mais disponível para os outros. Acho que as pessoas quando estão comigo se sentem acolhidas e isso faz-me sentir muito bem comigo.

 

Perguntei-lhe se achava que era fácil envelhecer. O ser fácil ou difícil tem muito a ver com a forma como tu levas isso, respondeu. Há muito aquela ideia, aquele preconceito de que uma mulher de 40 aos olhos dos outros já está gasta. Só que as pessoas esquecem-se que o envelhecimento não é apenas um resultado físico. Sentirmo-nos vencidos pelo cansaço, pela rotina, por aquilo que levamos às costas é o que nos envelhece. Para mim uma pessoa envelhecida é uma pessoa que perdeu os sonhos. Porque se tiveres algo na vida que te dá brilho nos olhos, por mais rugas que tenhas, tens vida. E isso transparece. Não há ginásio, nem dieta que te dê o brilho que um sonho te dá. Saber envelhecer é saber manter os sonhos.

 

Cristina Basílio

48 anos

Professora de português

 

Patrícia Fonseca

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Acompanho o trabalho da Patrícia já há algum tempo. Quando eu e o Mário começámos este projecto, o nome da Patrícia foi um dos primeiros nomes que escrevemos na lista. Tinha a ideia de que ela teria imensas histórias para contar, muito capital de tempo para partilhar connosco. Não me enganei. Tanto que perdemos a noção do tempo enquanto conversámos. 

 

Perguntei-lhe qual o trabalho que mais a tinha marcado. Dizer qual o trabalho que mais me marcou é difícil, respondeu-me. Fizeram-no todos de maneiras diferentes. Mas, talvez, o primeiro, em 1997 tenha sido o que me tenha marcado mais. Tinha começado a trabalhar há cerca de um ano e tal, ainda era estagiária, e fui aos Açores fazer a reportagem sobre o deslizamento de terras na Ribeira Quente. Foi o primeiro impacto que tive com a morte. Uma semana no meio de bombeiros, populares, a tentar encontrar pessoas com vida. Houve famílias inteiras que morreram. Uma semana sempre a chover, sempre molhada até aos ossos, a acompanhar o retirar de cada corpo, a ir a todos os funerais. Foi ali que eu percebi que, apesar da minha fragilidade, apesar de ser uma pessoa muito emotiva, conseguia fazer aquele tipo de trabalho. A reportagem chegou a receber um prémio de revelação. Mas foi, mais do que tudo, o “sou capaz de fazer isto” que eu ganhei dessa experiência.

 

A propósito desta história perguntei-lhe como é que se ganham defesas para, que durante um trabalho desses, se consiga lidar com a morte. Tens de ganhar, responde-me, não tens outra hipótese. O mais complicado dessas experiências é o regresso. Lembro-me que quando voltei do Haiti, depois dos terramotos de 2010, era época de Natal e, naturalmente, havia um ambiente de celebração. E eu, que tinha regressado de um sítio onde havia morte, destruição e fome, só pensava, como, mas como podem estar todos tão normais? O Haiti foi uma experiência muito dura. Morreram quase 300 000 pessoas. Tropeçavas nos corpos na rua. Houve uma altura em que começaram a fazer piras para resolver o problema dos cadáveres. Vi crianças a serem despejadas em valas comuns. Para além disso foi todo o ambiente em volta, era um país em caos, onde havia pessoas capazes de matar por uma garrafa de água. Nestes sítios, nestas situações vem ao de cima o pior e o melhor de nós. Se por um lado o instinto de sobrevivência nos transforma em bichos, por outro também somos capazes das coisas mais bonitas que vi na minha vida. Amor e solidariedade entre desconhecidos, pessoas que se salvaram umas às outras, verdadeiros raios de luz no meio das trevas. E nestes raios de luz estão as histórias que mais me interessam. Estes sítios também nos marcam no sentido de darmos valor aos privilégios que temos, como por exemplo poderes abrir uma torneira e teres água, poderes pôr os teus filhos a dormir sem teres medo que a tua casa seja destruída por uma bomba. Isto é um paraíso no meio do caos que é o mundo. Quando passas por outros sítios e vives outras realidades passas a relativizar. E tal como diz o Sérgio Godinho percebes que “a vida é feita de pequenos nadas”.

 

Já no fim da conversa pergunto-lhe pelo tema que a trouxe até nós: os 40 anos. Não senti grande mudança aos 40, se queres que te diga. A grande mudança para mim foi aos 37, quando fui mãe. E depois aos 43, quando fui mãe de novo. E aí sim, digo-te, quando se é mãe nessa fase, já se sente sente-se a idade. Principalmente porque durante a gravidez te  apercebes que corres muitos mais riscos. Riscos associados à idade que já tens.  E, sinceramente, acho que não mudei assim tanto com a idade. Acho que mantenho uma certa inocência na forma de olhar o mundo, a capacidade de olhar para as coisas como se fossem novidade. Isso, a maternidade ajudou-me a manter. Sinto-me sempre uma miúda cá dentro e quero sentir-me assim quando tiver 80 anos. Quero acreditar que vou continuar a acreditar. E que vou manter esta capacidade de ver os raios de luz mesmo quando tudo se apaga.

 

Patrícia Fonseca

44 anos

Jornalista e editora

 

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